segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Do que não se escreveu (prosa)




Um pouco fatigado se colocou face ao papel. Não sabia se realmente gostaria de colocar coisa alguma na folha que se afigurava defronte de si. Sentia uma vontade enorme de se comunicar, mas pouco a pouco desconfiou que quaisquer expressões seriam vazias. Não sabia nem mesmo a quem gostaria de dizer o que sentia. Nem cultivava certezas acerca dos sentimentos que o rondavam. Parou então por um instante e passou um risco despretensioso por entre as linhas que cercavam a ponta do lápis. Achou que aquele momento expressava o que julgava perceber em si: margeado por linhas secas e retas, gostaria de extravasar tudo aquilo.

Foi um vislumbre fugaz que logo se desvaneceu. Não sabia como expressar aquela epifania momentânea. Voltou a se concentrar no que de trivial poderia estar incomodando. O fez sem encontrar coisa alguma: "Os problemas relativos à existência dificilmente são triviais para quem os vivencia" - pensou.

E ficou ali, com o lápis parado costurando em si as passagens recentes que ainda não faziam parte do completo de seu ser. Não considerava aquilo como retalhos de sua existência, mas como pedaços de quebra cabeças que surgem sempre que se pensa estar prestes a encaixar todas as peças. E, mais interessante: as peças se encaixavam de maneira quasi aleatória e as imagens formadas eram tantas que dificilmente conseguiria completar a tarefa que se propôs antes do anoitecer.

Queria saber desenhar. Às vezes se fugisse das linhas conseguiria expressar qualquer coisa que não a presença do vazio que o dominava. Mas, se é o vazio não o demonstra um texto não escrito?




Yamãnu B.

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